Uso do telemóvel em crianças


Apr 8, 2020

A infância é uma fase de rápido crescimento celular, do nascimento aos dois anos o cérebro da criança triplica de tamanho, continuando em crescimento até aos 21 anos. Este desenvolvimento cerebral é determinado pela quantidade e qualidade dos estímulos ambientais.

Atualmente, os pais, são cada vez mais pressionados a dedicarem mais tempo à sua vida laboral pela atualidade social e cultural. Assim, a disponibilidade que têm para os seus filhos acaba por ser cada vez menor, acabando por recorrer a brinquedos mais tecnológicos e práticos. Contudo este uso excessivo e precoce das tecnologias acaba por condicionar o próprio desenvolvimento psicomotor, emocional/comportamental e social das crianças em crescimento.

O desenvolvimento psicomotor é grandemente influenciado negativamente pelo uso da tecnologia, uma vez que promove o sedentarismo, e, é sabido que, o movimento do corpo estimula a atenção, a capacidade de aprendizagem e a normalização do sistema sensorial, sendo também fundamental para a prevenção da obesidade infantil (29,6 % em 2019, dados da OMS).

No que concerne ao desenvolvimento sensorial a escassez de exploração do mundo em redor e a perda de identidade com o “brincar” poderá traduzir-se nas perturbações regulatórias do processamento sensorial, descritas pela primeira vez em 1993 por Greenspan e Wieder, e podem ser definidas por um padrão específico de comportamento associado a dificuldades no processamento sensorial e planeamento motor que condicionam significativamente a adaptação às rotinas diárias, relações interpessoais, atenção, concentração, leitura e escrita, entre outros.

O uso das tecnologias de forma desenfreada provoca igualmente perturbações do sono e alterações do comportamento. A maioria dos pais não controla o uso das tecnologias pelos seus filhos permitindo a sua utilização independentemente do contexto, da hora e do tempo. Assim, calcula-se que cerca de 75% das crianças entre os 9-10 anos de idade têm privação de sono, com implicações diretas no aproveitamento escolar e comportamento.

Outra consequência desta época digital é o favorecimento da socialização digital em detrimento da socialização presencial, que causa evidentes lacunas nas competências sociais essenciais para a criação de relações sociais saudáveis assim como para ingressar o mercado de trabalho. As estatísticas preocupam profissionais de saúde  ligados ao desenvolvimento infantil (psicólogos, terapeutas da fala, terapeutas ocupacionais, entre outros) que cada vez mais se deparam com lacunas sociais, físicas e sensoriais das camadas mais jovens.

É consensual a praticidade e facilidade da era digital e do acesso rápido à internet, no entanto, é impreterível pensar nos malefícios que lhe poderão estar associados. Desta forma, e, como em quase tudo, é necessário haver equilíbrio para que a evolução não se torne o nosso retrocesso.