Autismo | O poder que a Integração Sensorial tem sobre este diagnóstico


Mar 30, 2020

Muitas crianças com Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) apresentam dificuldades de processamento sensorial. Estas dificuldades têm impacto no seu comportamento, aprendizagem, interação social e participação nas atividades da vida diária.

Segundo Ayres, J. (2005), a integração sensorial define-se como o processo neurológico que organiza as sensações do meio envolvente e do próprio corpo, permitindo a participação do indivíduo nos seus contextos de vida. Segundo diversos estudos científicos, a Terapia de Integração Sensorial, desenvolvida pela Terapeuta Ocupacional A. Jean Ayres, comprova-se eficaz no desenvolvimento das capacidades funcionais de crianças com PEA.

O processo de integração sensorial abrange as sensações que recebemos dos sete sistemas sensoriais: olfativo, tátil, auditivo, visual, gustativo, propriocetivo e vestibular. Este processo engloba perceção, reatividade e processamento sensorial e ainda as funções motoras associadas, como praxis (capacidade que nos permite planear e executar uma ação), integração bilateral e controlo postural.

É comum observar uma criança com PEA com dificuldades de participação nas rotinas diárias e em tarefas como vestir/despir, banho, alimentação, brincar, saídas familiares, atividades sociais e/ou tarefas escolares.

Muitas crianças com PEA apresentam um perfil de hiper-reatividade tátil e, por isso, evitam tocar em determinados materiais e não são capazes de tolerar determinadas texturas com as mãos, inibindo assim, a sua participação em tarefas escolares. Por outro lado, se apresentam pobre discriminação tátil, poderão apresentar maior dificuldade em concretizar a tarefa de apertar os cordões, em identificar ou distinguir diferentes materiais, exigindo um maior esforço e atenção por parte da criança. Ao nível do planeamento motor e da praxis, são observadas dificuldades na concretização de tarefas mais complexas e não familiares. A exposição a sons, como o ruído de determinados equipamentos domésticos ou festas de aniversário, pode causar dificuldades de participação e comportamentos de hiper-reatividade. A área da alimentação pode ser igualmente um desafio para crianças com PEA, uma vez que está relacionada com várias sensações (olfativas, visuais e táteis). Frequentemente as dificuldades de participação social, para além de outras inerentes à PEA, podem estar também relacionadas com dificuldades de modulação sensorial. Observam-se ainda outras dificuldades como ajustar o nível de alerta e de arousal (atenção/concentração) e alterações ao nível do sono e ansiedade.

É importante compreender que estes comportamentos podem variar de acordo com o perfil, com o contexto e com a forma como a criança processa as sensações. Quando as dificuldades de participação e de comportamento estão relacionadas com dificuldades de integração sensorial, esta deve ser encaminhada para um terapeuta ocupacional especializado, no sentido de avaliar e definir um plano de intervenção ajustado às suas necessidades.

 

Referências:

Schaaf, R. C., Mailloux, Z. (2015). Clinician’s guide for implementing Ayres Sensory Integration – Promoting participation for children with autism. AOTA, Montgomery Lane.

 

Maria João Fernandes, Terapeuta Ocupacional, Cédula Profissional Nº C-044019181